The bright side of the moon – text by Tomaz Vieira


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Tomaz Vieira, pintor

Luar

Estes “luares” de Filipe estão corporizados num processo de recriação de luz. Olho para estas criações instruido pelo conhecimento das obras anteriormente produzidas pelo artista. Mais do que isso, olho-as com todas as referências que vêm desde um passado de três décadas. Refiro a minha memória desse tempo, quando docente de uma turma do nono ano de escolaridade e recordo um jovem criativamente irrequieto, formalmente insatisfeito e de persistentes decisões.
Agora, Filipe faz parte de uma geração de artistas em fase de confirmar os resultados da respectiva maturidade. Assistir ao “nascimento” de um artista, certamente condiciona uma postura perante a respectiva obra. Quantas vezes o facto de não se estar muito por dentro de um determinado processo “histórico”, poderá estimular a perplexidade expressa numa adesão espontânea, quiçá mais sentida, dos respectivos frutos ou consequências. Assim, outras pessoas poderão ver estas obras em contexto emocional diferente do meu. Por mim, aproveito o privilégio de uma panorâmica particular.

Depois de realizada uma obra, ela passa a ser uma ideia que adquiriu o próprio corpo. Uma vez materialmente separada do artista, tem de ser vista como entidade independente e de acordo com as respectivas intrínsecas potencialidades estéticas. Sabemos que os críticos, os sociólogos e os historiadores “emolduram” o juízo estético em variáveis que podem referenciar a obra em termos alheios à essencial existência dessa mesma obra. Por isso, abstenho-me de, nesta abordagem às obras de Filipe, referir classificações, quer se trate de “ismos” ou de quaisquer outras designações de estilo..

Nos trabalhos da série anterior, denominada “Óxidos”, Filipe estruturou formas de dimensão telúrica evocativas de uma postura comtemplativa, acompanhadas de outras que, embora no mesmo contexto formal, podiam ter algo a ver com referências a “design”. A presença destas, junto das demais era como que uma estratégia para não deixar a Terra desabitada. Note-se que essas formas, pela escala e inutilidade funcional, apenas referiam “design” em termos de metáfora.
Os materiais então usados por Filipe incluiam terra do chão desta ilha e lama das caldeiras, num processo de aplicação com resultados muito próprios. Para além do mais, denunciava um ritual no âmbito misterioso daquele estado de espírito que se atinge quando se imprime alma e sentimento na matéria. A obra de Arte, sintetizou alguém com a devida propriedade, resulta de um problema sentido.

Depois de “lidar” com essa entidade feminina, com profundas referências simbólicas de fecundidade e criação que é a Terra, Filipe enfrenta, agora, novamente em “veneração” pelo feminino, a forma lunar enquanto fonte de uma luz única na nossa experiência emocioal. A lua já foi adorada, já foi deusa, já foi responsável na projecção de múltiplos sentimentos e, quantas vezes, cúmplice do que quer que lhe possa ter sido proposto, para o bem e para o mal, durante toda a existência da Humanidade.
A ligação da anterior fase de trabalho de Filipe com a actual, tem, para além dessa correlação simbólica de feminilidade, outras tantas referências tanto de ordem formal como de cariz conceptual. Referio-me a aspectos que o artista evoca na estrutura sinóptica do projecto destas obras, por vezes derivados de questões científicas, assim como de questões filosóficas ou do âmbito gestáltico.
Na forma algo peculiar que lhe é própria, disse Bertrand Russel que “A Ciência fala de coisas que estão provadas; a Filosofia fala de coisas que não se conhecem”.”Quando Einstein falou da curvatura da luz, isso ainda não estava provado, pelo que se tratava de Filosofia e não de Ciência….” Será a Arte exactamentea a via de falar do que não se conhece, através de metáforas e de materiais conhecidos ?
A escolha dos materiais com que Filipe constrói estas obras é de um extremo rigor. Só eles podem alcançar objectivos muito bem definidos nas respectivas intenções. A “docilidade” textural e a leveza da chamada “esferovite” permite um corte com a momentânea expressão do percurso da mão que o talhou (quando não talhada com instrumentos de rigor industrial),. No método de execução escolhido por Filipe, a justaposição e ordenação dos elementos com que organiza cada composição, é feita com propósitos rítmicos. Propósitos esses, especialmente dirigidos ao jogo de iluminação a que são submetidas séries de barras paralelas geometricamente irregulares, predominantemente horizontais. O resultado, em termos de uso da luz, como elemento interveniente na composição, processa-se na interacção de porções de matéria iluminada com as respectivas sombras próprias e projectadas. É um conjunto de efeitos que, para além de poder conter algo de lúdico, enquanto factor próprio da criação artística, existe com a definida finalidade expressiva que tem a ver com um compromisso de intenção, isto é, com a temática destas obras. Trata-se de uma postura própria de quem procura uma determinada realidade, não a ilusão de qualquer realidade .
Os recursos oficinais de Filipe são sempre sublinhados pela qualidade da excelente execução das suas obras. Fá-lo agora, uma vez mais, sem qualquer perigo de cair no virtuosismo porque possue a mestria de integrar os materiais numa vivência própria.

Tomaz Borba Vieira
Janeiro de 2007 Moonlight

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Tomaz Vieira, painter

Luar

These ‘moonlights’ of Filipe are corporated in a process of recreation of light. I look at these creations instructed by the knowledge of the earlier works produced by the artist. More than that, I look at them with all the references that go back as long as 30 years. I refer to my memory of the time that I was a teacher of a class of the ninth grade, and I remember a creative, restless young man, formally unsatisfied and of persistent decisions.
Nowadays, Filipe is part of a generation of artists in the process of confirming the results of the respective maturity. To witness the ‘birth’ of an artist, certainly conditions a posture before the respective work. How many times the fact of not being very much within a certain ‘historical’ process could stimulate an expressive perplexity in a spontaneous adhesion, perhaps more felt, of the respective fruits or consequences. Therefore, other people could see these works in a different emotional context than mine. As far as I am concerned, I take advantage of the privilege of a private view.

After a work is realized, it gets to be an idea that acquired its own body. Ones materially separated of the artist, it has to be looked at as an independent entity and in concordance with its respective aesthetic, intrinsic potentialities. We know that the critics, the sociologists and the historians ‘frame’ an aesthetic judgment in variables that can referenciate a work in terms oblivious to an essential existence of this same work. For this, I abstain, in this approach of the works of Filipe, of referring classifications, nor about the ‘ists’, or about whatever other style designation.

In the works of the former series, called ‘Oxidos’, Filipe structured forms of telluric dimension, evocative of a contemplative posture, accompanied by others that, though in the same formal context, could have something to do with ‘design’. The presence of those, together with the others, was like a strategy for the world not to be uninhabited. It is to note that these forms, because of the scale and functional unusefullness, only referred to ‘design’ in metaphorical terms.
The then used materials by Filipe included earth from the ground of this island and clay from the geysers, in a process of application with very typical results. What’s more, it announced a ritual in the mysterious extent of that state of spirit that one reaches when one prints soul and feeling in the matter. The work of Art, synthesized someone with a certain property, that results from a felt problem.

After leading with this feminine entity, with deep symbolic references of fertilization and creation that is the Earth, Filipe now faces again the ‘reverence´ for the feminine, the lunar form while source of a unique light within our emotional experience. The moon has already been adored, has already been a goddess, has already been responsible for the projection of multiple sentiments and, how many times, accomplice of whatever has been proposed to her, for the good or the bad, during the whole existence of Humanity.
The connection of the former phase of the work of Filipe with the actual, has other references as well as this symbolic correlation of the femininity, as much of a formal order as of a conceptual face. I refer to the aspects that the artist evokes in the synoptic structure of the project of these works, sometimes stemmed from scientific questions, sometimes from philosophical questions or of the gestalt-point-of-view. In the special way that is typical for him, Bertrand Russel said that ‘ A Science speaks of proven things; a Philosophy speaks of things that are not known’. ‘ When Einstein talked about the curve of the light, this hadn’t been proved yet, and for that it was about Philosophy and not Science…’ Could it be that Art is exactly the way of speaking of the not known, through metaphors and known materials?
The choice of the materials with which Filipe constructs these works is of an extreme rigour. Only these can achieve well-defined objectives within the respective intentions. A textural ‘sweetness’ and the lightness of the so-called ‘polystyrene’ permit a cut with the momentaneous expression of the route of the hand that it carved (when not carved with instruments of industrial thoroughness). With the method of execution chosen by Filipe, juxtaposition and ordering of the elements with which he organizes every composition, is done with rhythmic intentions. These intentions are specially directed for the light game to which are submitted series of parallel bars, geometrically irregular, predominantly horizontal. The result, in terms of use of light, as intervening element in the composition, processes itself in an interaction of portions of material lit up with the respective shadows, their own and projected. It’s a whole of effects that, besides to be able to contain something playful, while an own factor of the artistic creation, exists with a defined expressive purpose that has to do with a compromise of intention, that is, with the theme of these works. It has to do with the own posture of who searches for a determined reality, not an illusion of any reality.
The officinal resources of Filipe are always underlined by the quality of the excellent execution of his works. He does it now, once again, without any risk of falling into virtuosity, because he owns the mastery of integrating the materials in an own vividness.

Tomaz Borba Vieira
Janeiro de 2007 Moonlight

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