mare magnum _ text by José Tolentino Mendonça

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O MAR MAIS INTRADUZÍVEL

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Duas ou três coisas muito sumárias, dois ou três sublinhados que furtei, contra o tempo que atravessamos, a um livro de Heidegger: a obra de arte não é uma representação para que mais facilmente se conheça, perfurando-a, que aspecto tem a verdade. A obra de arte faz advir a verdade, é a verdade. A obra de arte não imita o mundo: instala um mundo. A obra de arte, no seu estar-aí, concede às coisas e aos homens a compreensão de si mesmos.

Habituamo-nos a tudo: à proliferação redundante das imagens, à acumulação afásica dos signos, à manipulação que mina as certezas do olhar. Pensar o estatuto da imagem na contemporaneidade introduz-nos num voraz corredor infindo, que os antigos tinham coragem de chamar labirinto, enquanto nós só muito tenuamente reconhecemos. É aí, porém, que estamos, entre representações e simulacros, aturdidos, num quarto flutuante, cheio de espelhos: as imagens multiplicam-se, redobram, contaminam todo o espaço, como as pandemias que tememos. Mas a verdade distancia-se.

A obra de arte, pelo contrário, não é representação, mas presença. Não alude, instaura. Não procura, encontra. E assim constituída em alteridade é que dá a ver, é que permite ao homem e ao mundo a consciência de si. Num tempo que parece jogar tudo na reprodução de equivalentes e de comparáveis, a arte emerge como sinal de contradição, como território de resistência, pois a ela lhe interessa, e apenas lhe interessa, inscrever, no aqui e no agora, a exploração do incomparável, a estranheza absoluta, o intraduzível.

É claro. Quando se discute o problema das imagens, está-se a discutir o projecto de humanidade, sobretudo isso. O processo de homologação dos ícones e discursos visuais é apenas um dos sintomas de uma outra homologação em processo: a do homem e das culturas. A este propósito, Pasolini viria a tornar-se um quase anti-moderno, denunciando os efeitos, no homem comum, daquilo que ele designava por ‘involução consumista’. Esta propõe-se a anulação das culturas particulares, apoiando-se em duas revoluções que são da ordem do dia, e absorvidas talvez acriticamente: a ‘revolução das infra-estruturas’ e a ‘dos sistemas de informação’.

As vias rápidas unem as periferias ao centro, apagando as distâncias, não tanto com o intuito de aproximar pessoas, quanto o de fazer circular, com maior velocidade, a mercadoria. Os Meios de Comunicação Social, e de modo muito especial, a Televisão, conseguem a assimilação daquilo que era diferenciado e enriquecido pelas culturas originais, uniformizando a diversidade criativa das linguagens. Para além de se estar a substituir a ‘língua humanista’ (que continha uma respiração profusa, heterogénea, criadora) por uma língua técnica e estereotipada que tem no ‘slogan’, nas imagens utilitárias, no adorno a sua bandeira.

Por isso toda a obra de arte se confronta com necessárias implicações políticas. Não estou a pensar em derivas panfletárias ou nos realismos e seus sucedâneos, felizmente ultrapassados. Estou a pensar na Mona-lisa, de Leonardo, ou na Vénus de Milo. Estou a pensar nesta exposição e no desejo que a informa de nos dar a ver o mar mais intraduzível.

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA |>
Maio 2006

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